Não se entenda por educação liberal uma pedagogia tributária do conjunto heterogêneo de doutrinas que recebem o título algo apologético de “liberalismo”1. E não vamos confundi-la, pelo lado oposto, com alguma coisa vagamente relacionada à esquerda dos EUA, onde a palavra liberal significa esquerdista. Sem ser um privilégio da esquerda ou da direita, e, aliás, tendo sido defendida justamente por um esquerdista e por um conservador irmanados em torno da mesma idéia, a educação liberal paira acima dos partidos e das convenções ideológicas. Para além do esquematismo dogmático, a educação liberal apresenta-se, sobretudo, como proposta aberta e livre de preconceitos, como método de estudo integral e compreensão do mundo que se realiza precisamente na consciência de uma personalidade bem formada e sadia.
Apenas há de se saber que a educação liberal serve perfeitamente aos objetivos da democracia. A idéia de sociedade democrática supõe a livre discussão entre seus membros; sem esta liberdade de discussão que se concretiza na liberdade de ação política dentro da órbita do justo e racional admitido pelo Estado de Direito, não há e nem poderia haver democracia. A democracia está intrinsecamente ligada à livre discussão. Por outro lado, sem uma forma de discriminar entre um ponto de vista superior e um ponto de vista inferior, entre uma opinião mais razoável e outra menos razoável, a discussão democrática perderia o sentido, pois cada qual reivindicaria a razão para si e afirmaria seu próprio ponto de vista como superior aos demais pelo simples fato de ser o seu ponto de vista. A inexistência de alguma forma de arbitragem racional da discussão retira da discussão todo o seu sentido e propósito e a transforma numa disputa de egos onde vale apenas o discurso mais sedutor e agradável. Como cada qual acha a princípio o seu próprio discurso o mais sedutor e agradável de todos e apenas se convence do discurso alheio porque considera algum critério capaz de validá-los, então a conseqüência rigorosa do relativismo epistemológico total é a dissolução do propósito da discussão e o próprio fim da democracia que nela se apóia.
Contrapondo-se a esta dissolução perigosa, a educação liberal pode proporcionar uma base para a discussão racional numa sociedade democrática e livre. Neste sentido, pode-se falar num significado político da educação liberal que enraíza-se na noção clássica de política como atividade em busca do bem comum da polis. Esta atividade, independente do conteúdo doutrinário que a dirija, será tanto mais exitosa quanto mais estiver apoiada na visão adequada dos problemas contemporâneos e de suas soluções possíveis. E é justamente este entendimento do mundo contemporâneo, onde o aspecto político é apenas um entre tantos, o que esta nova paidéia nos vem possibilitar. Por isso mesmo pode e deve ser aproveitada por todas as escolas e todos os partidos, embora alguns pontos básicos de sua proposta examinados à luz dos pressupostos filosóficos mais gerais que lhes sustentam, dificilmente poderão ser conciliados com certas doutrinas e ideologias.2
Como dizíamos, por educação liberal entendemos certo projeto pedagógico bastante amplo, aplicável em princípio a toda e qualquer realidade política. Acrescentaremos que uma tal pedagogia pode ser aplicada a qualquer realidade educativa, mesmo as mais afastadas dos moldes anglo-saxônicos onde ela nasceu. Foi este projeto, desde sua criação, coroado por sucesso nos mais diversos contextos sócio-políticos e culturais para os quais o trouxeram - o que basta para confirmar a tese de sua universalidade. E foi ainda o principal baluarte da resistência da cultura universitária norte-americana à queda na barbárie tecnicista e na especialização imbecilizante – suficiente para considerá-lo uma novidade auspiciosa em nosso país, tradicionalmente avesso ao pensamento sistêmico e a interdisciplinaridade nas universidades. As principais universidades americanas têm “Colleges of Liberal Arts”, onde os estudantes se detêm em investigações gerais orientados por este método e adquirem a visão retrospectiva das tradições intelectuais do Ocidente. Tornam-se, assim, capazes de manter a alta conversação da cultura universal, em cujo lastro se apóiam todas as demais atividades da civilização.
Não estamos falando de uma fórmula como a demagógica “educação para a cidadania”, seja lá o que isso queira dizer no vocabulário dos ideólogos do dia, mas sim um projeto bem definido de alguém que estudara num programa de leitura dos clássicos e recebera neste programa uma formação incomparavelmente mais refinada do que a ministrada nas universidades da época. Este homem, Mortimer J. Adler3, havia notado a decadência das instituições de ensino americanas. Então, baseando-se na sua experiência pessoal de leitura dos clássicos, Mortimer J. Adler resolveu elaborar um vasto programa de estudos cuja idéia básica era transmitir ao aluno o conhecimento dos grandes problemas científicos, filosóficos e artísticos do Ocidente mediante a leitura dos autores essenciais da civilização ocidental. Naturalmente, a leitura destas obras se aprofundava mais e mais, em vários níveis descritos por Adler minuciosamente no famoso livro How to Read a Book, alargando-se em esferas concêntricas até abarcar todo o horizonte da cultura dos séculos passados. Com isso, abriam-se os olhos do aluno à realidade vivente de sua própria tradição.
Dizia Hutchins (parceiro de Adler no projeto e o primeiro a levá-lo para uma universidade) que um homem que lesse todos os livros em sua juventude e não retornasse a eles na idade madura nada haveria compreendido. Pois a educação liberal não é um método de pedagogia escolar, embora possa e deva ser oferecido aos estudantes desde idade noviça. Apenas não deve parar na juventude, mas prosseguir durante o resto da vida de um homem. Insuflado pelo espírito dos séculos o sábio conduz a si mesmo por todas as épocas sem que sinta-se preso a esta ou àquela época em especial. Assemelha-se a tal sábio o indivíduo que tenha realizado plenamente o ideal de educação liberal. Sondando todas as épocas com o olhar agudo de quem jamais se surpreende porque tudo contempla, o homem plenamente educado deixa-se enamorar-se pelo espetáculo deslumbrante do espírito humano em suas construções mais finas e em seus abismos vertiginosos. Educação para a sensibilidade profunda e para a comunhão com a sensibilidade dos homens de todas as épocas, a educação liberal também guarda um valor sólido como escudo às alternativas espúrias que a contemporaneidade pode vir a oferecer, e acostuma o indivíduo a buscar a solução dos problemas não na superfície da atualidade, mas por entre os veios profundos da História Universal. É, pois, uma educação da sensibilidade histórica.
Tal método, contudo, tem por objetivo formar no aluno a capacidade de discutir com mais inteligência os problemas contemporâneos, uma vez encaixados no panorama histórico maior da civilização. Evidentemente, este método tem alguns pressupostos básicos bem razoáveis. 1) Ele dá por pressuposto que a maioria das discussões importantes é mais antiga do que todos nós e remonta há séculos e milênios atrás. 2) Toma como certo o fato de que as tais discussões importantes haviam sido tratadas por homens importantes, que a importância destes homens residia justamente em havê-las pensado com especial rigor e originalidade e, finalmente, que as contribuições fornecidas por estes homens eminentes à história do pensamento podiam de algum modo ser compreendidas em nossa época, malgrado a distância temporal separando o aluno daqueles cujas contribuições deveria absorver e interpretar à luz das artes liberais. 3) Acredita que o cânone ocidental, salvo exceções raríssimas, está em perfeito acordo com a importância real dos autores do passado 4) Considera possível assimilar e converter em conhecimento personalizado o saber de várias áreas científicas. 5) E, finalmente, enxerga nestas artes liberais, reunidas no trivium (gramática, dialética e lógica) e no quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia) os instrumentos necessários para que o indivíduo realize a análise e a síntese dos conhecimentos adquiridos na leitura dos clássicos.4 Estes pressupostos lastreiam todo o esforço do estudante universitário em conquistar patamares cada vez mais altos na compreensão e na personalização dos clássicos.
A universidade é desde há muito o locus privilegiado da formação da elite culta, da intelectualidade mundana que hoje orienta os destinos culturais e, conseqüentemente, sociais e políticos das nações e da civilização como um todo. Daí a importância pragmática imensa da formação de uma verdadeira elite intelectual, formação que só é possível através da compreensão em perspectiva da sua própria tradição, sem a qual o indivíduo se perde nas malhas da história e não é capaz de elevar-se ao cosmopolitismo mental do homem versado nas várias tradições e nos vários saberes. O provincianismo dificulta a solução dos problemas da sua própria época, pois estes problemas exigem uma visão ampla e panorâmica da sociedade. Por outro lado, o indivíduo ignorante do exato ponto em que as discussões sobre um dado tema estão dificilmente conseguirá responder às perguntas que exigem um conhecimento para além da realidade mais imediata.
Com efeito, as universidades já não são mais capazes de fornecer uma elite intelectual. O estudante universitário, bem viu Adler, é acrítico num sentido mais profundo que o político. Ao estudante falta-lhe a consciência da dimensão histórica de sua missão, cujo malogro resulta, em última análise, no enrijecimento da cultura em ideologias simplórias e em certos modismos lúdicos típicos das civilizações crepusculares como o eram os jogos florais entre os últimos romanos. Perdido o laço que une cultura e vida, que se expressa sempre por aquela sacra reverência em relação às grandes realizações do passado bem como pela aspiração à mesma grandeza futura, não resta no altar da Inteligência sacrificada à ideologia senão os restos mortais de uma ciência cujo desenvolvimento mais lustroso em nada poderá compensar a perda do espírito filosófico que animava seus antigos cultores. Realmente, uma só censura não será feita quanto ao progresso das ciências, progresso digno do maior apreço. Mas quem o celebra não se esqueça, por favor, de medir o que perdemos em espírito filosófico e em unidade das ciências, todo o vasto saber dos séculos reunidos nas obras clássicas que hoje passam por leitura difícil e insípida. Restaurar o sentido da tradição ocidental, recobrar o espírito filosófico que se dirigia à compreensão integral das ciências realizada na unidade consciente de uma personalidade tornada espelho do mundo, e capacitar o indivíduo para a alta conversação da cultura - eis o conjunto de finalidades da educação liberal e, a rigor, a medida exata da sua importância e grandeza.
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Notas:
1 Apesar de não estar vinculada por princípio a nenhuma ideologia política determinada e tendo sido inclusive defendida por dois homens de ideologias opostas, Mortimer J.Adler e Robert Hutchins, o primeiro conservador e o segundo liberal - na acepção americana do termo –, concretamente, pode-se verificar convergências entre o projeto pedagógico de Adler e o liberalismo, tal como ele foi teorizado por sua principal vertente desde o século XVIII. Em primeiro lugar, dos três grandes modelos universitários da nossa época, os que melhor se encaixam na proposta de Adler são obra de liberais e conservadores-liberais. Logo temos como exemplo a Universidade de Berlim, fundada pelo teórico liberal Wilhelm von Humboldt, onde predominava o casamento tipicamente alemão entre pesquisa e magistério, com amplo espaço para a formação variada de uma intelectualidade ainda acostumada com certos privilégios medievais que a modernização conservaria. O outro modelo é o das universidades britânicas e tem por idealizador o clérigo John Henry Newman, figura de proa do conservadorismo inglês, cujas idéias pedagógicas aproximam-se em diversos pontos das de Adler. Newman encontrava-se igualmente empenhado em restaurar a formação integral, desinteressada, do estudante. Esta formação científica, mas sobretudo artística e filosófica, visava ao mesmo ideal de Mortimer Adler, - a formação de uma elite culta e profundamente identificada com tudo o que é do espírito e da civilização. Por fim, o terceiro modelo, proveniente da reforma da Universidade de Paris em 1814, já se encontra a léguas de distância do ideal de educação liberal, pois submete a atividade universitária aos critérios de eficiência do Estado e, posteriormente, aos critérios ainda mais estreitamente utilitários das corporações privadas. Se acreditarmos com F.Hayek que o liberalismo genuíno contrapõe-se ao racionalismo construtivista, o qual teve na Revolução Francesa seu marco histórico mais vultuoso, dificilmente poderíamos considerar a reforma estatista da educação francesa como uma reforma liberal, sobretudo quando se conhecem as convicções ideológicas autoritárias do autor das tais reformas: ninguém menos que o próprio Napoleão Bonaparte. Para nosso grande infortúnio, foi este o modelo universitário adotado pelo Brasil, onde há notória influência francesa na educação.
2 Aqui não é lugar de argumentar contra o reducionismo ideologizante de alguns. Apenas observamos, de passagem, que os argumentos de que estes mestres da malícia se utilizam contra filosofias e teorias alheias jamais são contrapostos às suas próprias teorias por eles mesmos como seria de se esperar. Assim, o pensador que identifica em teorias adversas a expressão subjetiva das fraquezas e ressentimentos do indivíduo que as criou, raramente fará esta sondagem psicológica demolidora contra as suas próprias concepções ou fará apenas em relação às idéias que tinha e superou. A um observador imparcial lhe surpreende a pressa indecente com que certas concepções são postas de lado em razão da suspicácia maliciosa que tudo reduz a um jogo de forças para além da consciência individual, ao determinismo de classe ou às pulsões do inconsciente, ou ainda pior, aos ressentimentos e às neuroses do defensor da teoria x ou y, como se houvesse um meio de saber com segurança qual o estado psicológico do indivíduo que defende a teoria x ou y. E como se o raciocínio que tem por objetivo investigar estes estados pudesse, mesmo quando correto, elevar-se acima de um raciocínio meramente probabilístico.
3 Perda irreparável para o mundo, sua morte há alguns anos passou quase despercebida no Brasil, exceto por algumas breves notas cronológicas e dois ou três artigos de maior fôlego celebrando-lhe a memória. É um sintoma de quanto o país está afastado das principais referências teóricas e se compraz no louvor de figuras menores. Embora desconhecido do público geral, é dele a coleção magnífica da Enciclopédia Britânica “Great Books of Western World”. E é justamente esta coleção de livros a base da educação cívica proposta por Adler.
4 As artes liberais não subsistiam exatamente em sua formação original, mas haviam sido adaptadas para a realidade moderna pelo próprio Adler com a finalidade de dar ao aluno o suporte intelectual para compreender os clássicos. Essenciais á cultura da época, elas habilitavam o homem medieval a pensar na base das realidades numérica e verbal para que, superando-as pela meditação religiosa e pela teologia, ele pudesse ir além delas chegando à realidade transcendente. Sem este sentido transcendentalista já as encontramos na antiga Grécia e sua formulação organizada deve-se aos sofistas.
domingo, 2 de setembro de 2007
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